Comércio, Música, Personagens

Wilson vende discos na Praça Tiradentes

É maio de 2017 e estou no Circo Voador aguardando pelo início do show de Lô Borges – tocando, na íntegra, o chamado “disco do tênis”. Paro com um amigo à frente de um estande com LPs à venda, todos, como quase sempre em qualquer estande do tipo pela cidade, com valores inflacionados. Mineiro de BH e de passagem com a equipe do show, Rodrigo, o amigo, diz que pretende voltar em julho e me pede dicas de locais para comprar discos. Falo da Baratos da Ribeiro, em Botafogo, com bons papos e acervo seleto. Falo da Tropicália, quase na Uruguaiana, acervo gigante e preços justos. E digo que vale procurar o Wilson, um vendedor de rua ali perto do Teatro João Caetano, com material amplo, de poucas novidades mas algumas surpresas e, sem dúvida, com os melhores preços. Sou, então, interrompido por outro sujeito que olha as caixas ao nosso lado enquanto balança a cabeça concordando com a minha sugestão: “Segue o conselho e vai no Wilson. O cara é bom!”

Não lembro ao certo a primeira vez que comprei com ele, mas lembro de ter sido salvo por Wilson em 2012 quando comprei ali, ainda na calçada da Sete de Setembro, exatamente em frente à Praça Tiradentes, os discos do Raça Negra que precisava para compor a capa do Jeito Felindie, que seria fotografada em meia hora no finado Al-Farabi, na Rua do Rosário. E lembro que já peguei com ele um Tamba Trio, alguns Stones, um pouco de jazz… sempre por valores mais convidativos que os que encontraria em seus concorrentes, sempre bem atendido e, quase sempre, ganhando algum desconto.

Baiano de Vitória da Conquista e atual morador da Gamboa, Wilson Gomes da Silva é daquelas figuras que parecem ter estado desde sempre por ali, tipo Dom Pedro em seu cavalo no centro da praça. E, se não está desde sempre, já está há algum tempo: se ignorarmos a pequena mudança ocorrida durante as obras do VLT, há três anos, quando o vendedor saiu de seu primeiro ponto, na Sete de Setembro, para o atual, na esquina da Rua Imperatriz Leopoldina, de seus quase 30 anos trabalhando com música, foi ali que Wilson passou os últimos 13.

“Montei uma equipe de som com mais dois camaradas e depois fui diretamente pra vender. Terminei a equipe e fui direto pra vender. Fiquei em Osasco vendendo discos na Rua São João Batista, numa loja de discos. Depois fui pro centro de São Paulo e montei uma banca na Avenida Rio Branco. Depois de algum tempo eu entrei no CD, quando acabou o disco, e voltei pro disco aqui no Rio, onde já tô há quinze. Aqui na praça eu tô há 13.”

Simples na aparência e humilde de um modo geral, Wilson tem noção de sua importância, pontuando com orgulho algumas de suas frases. “Pra me deixar mais tranquilo, eu já faço parte da cultura do Rio, me colocaram para o lado de cá. As vendas aqui, graças a Deus, eu tenho cliente do mundo inteiro, entendeu? Minha banca é a mais conhecida na cidade. Eu vendo muito disco durante o ano. Sai muito disco barato, discos caros… Aqui, minha banca, é a mais, eu acho que é a mais frequentada do Rio”, estima sem falsa modéstia. “E o meu preço é o melhor de todos na cidade. Não tem comparação. Eles são bem limpinhos, conservados, e a galera gosta mesmo de chegar aqui”, propagandeia.

Conto a ele a história do Circo Voador. Enquanto enche seu copo descartável com um pouco mais de cerveja – que, aliás, havia acabado de me oferecer -, Wilson ri e agradece. “A minha banca é bem frequentada, entendeu? O povo gosta da minha banca. Eu tenho meu jeito também simples de ser, não gosto de ser arrogante, eu gosto de amizade, eu gosto de brincar”.

Pergunto se é difícil trabalhar com música e na rua. Ele nega. “Pra mim, música não tem dificuldade. Esse é o meu dom. A dificuldade que a gente tem é correr atrás dos discos, porque os discos bons ficam difíceis de achar. Mas é muito bom trabalhar com discos. Eu não quero mudar de profissão. Eu quero ficar aqui mais uns 10 anos ou 12. Eu posso ficar aqui mais 10, 12 anos, que ninguém vai me tirar daqui. Aqui eu tô na minha casa”.

Wilson cumprimenta passantes, se ajeita na cadeira de plástico branca, toma sua cerveja, calça e descalça seu chinelo e prossegue: “Eu sou um cara muito considerado na cidade e as pessoas gostam de mim do jeito que eu sou. Então eu não quero ficar rico, falar que eu tô rico. Eu quero que as pessoas saibam que eu to aqui disponível pra vender. Ficar rico, eu não quero ficar rico. Eu vivo bem com o caminho que eu escolhi, tenho tudo o que eu quero, tá entendendo?”.

Antes de ir embora, agradeço pela conversa e pergunto se posso tirar uma foto. Wilson pede pra pegar um disco, esconde seu copo e diz que tem que fazer cara de mau pra sair bonito.  

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