botecos, Comércio

Todo mundo que leu a matéria estava no Bar Brasil

Era 28 de agosto de 2011. Noto com alguma surpresa a proximidade do sétimo aniversário da última vez que havia ido ao Bar Brasil, também numa tarde de sábado, também dividindo uma bela porção de joelhos de porcos crocantes – “quase um torresmo”, faz questão de frisar o cardápio – com amigos (na ocasião, o poeta Nuno Virgílio Neto, o músico Manoel Magalhães e os jornalistas Marco Antonio “Bart” Barbosa e Marcelo Costa).

Não que minha memória seja incrível a ponto de guardar datas aleatórias assim, com facilidade. Precisei buscar esse dia no Google e foi fácil de encontrá-lo com a infeliz referência de um fato que ocorreu provavelmente enquanto dividíamos a conta: o acidente com o bondinho de Santa Teresa.

Mesmo morando mais perto há quase dois anos (em 2011, ainda estava por Curicica) e embora fã de carne suína, não voltei mais ao local. Isso até este sábado, novamente acompanhando Bart, um habitué do local, dessa vez também em companhia de Ricardo Schott. Felizmente sem uma tragédia para marcar a data, a ocasião, dessa vez, se relaciona a uma outra pauta de jornal: uma matéria publicada dias atrás pela Folha tratando sobre a decadência financeira dos botequins históricos da cidade.


Conhecemos o enredo: Copa, Olimpíadas e turismo inflaram o preço de absolutamente tudo na cidade – do aluguel ao valor da cerveja. Os eventos acabaram, os turistas se foram, a crise chegou, os preços e o serviço oferecido permaneceram os mesmos e, assim, o público para além dos turistas também deixou de aparecer – talvez exceto pelo Bart.

Em decorrência disso, pontos como o Nova Capela, Cosmopolita, Bar Luiz e o próprio Bar Brasil alegam correr o risco de se tornarem apenas lembranças, seguindo o exemplo de algumas dezenas de bares e restaurantes do centro citados por Francisco Paula Freitas no bom “Memórias gastronômicas e não só”.
Embora triste e preocupante, esse tipo de pauta não chega a ser uma novidade. Em 2014, o Bar Luiz escapou de sua derrocada por bem pouco, ganhando uma força de última hora da Prefeitura do Rio. Como não adianta estar em dia com o imóvel se não há consumidores para atender, o Bar Luiz, isolado em uma quase deserta Rua da Carioca, jamais conseguiu sair da UTI e pode, de fato, estar em seus últimos dias.

Com residências por perto e esporadicamente beneficiados por eventos na Lapa, pode haver esperança para o Nova Capela e do Bar Brasil, com o apoio certo aqui e ali e alguns ajustes nos preços e no atendimento. Em dia de Feira da Lavradio, por exemplo, ambos podem ser vistos cheios. A Feira, no entanto, só acontece uma vez ao mês.
Enquanto o martelo não bate, a gente faz a nossa parte. A impressão que tínhamos enquanto comíamos os bons petiscos da casa, como bem definiu o Bart, era a de que “todo mundo que leu a matéria da Folha decidiu dar uma força para o Bar Brasil”.

E sim, é verdade, o joelho é quase um torresmo.

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