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Eu moro no Centro

Estava no meio de uma reunião de trabalho e já era ali por volta das quatro da tarde, num daqueles momentos quando as conversas fogem do foco e atenção tende a vaguear quando aquela frase me fisgou: “O problema é que as pessoas não moram no Centro do Rio, elas passam por ele. E como não moram, não cuidam”. O contexto era o de pequenos descartes, de guimbas de cigarro, latas de cerveja, sacolas e embalagens plásticas. E sim, fazia sentido. A razão de ter fisgado minha atenção de filhote de beagle foi um pequeno detalhe: eu moro no Centro. E quando digo isso, não quero dizer que moro pelo Santo Cristo ou pelo Bairro de Fátima. Digo no Centro, Centro mesmo.

Desde 2002 frequentando assiduamente a capital fluminense – venho de Paracambi, final da Baixada ou início da região sul-fluminense, você decide -, morando há cinco, já havia estabelecido meu ninho em Curicica e, depois, Madureira (talvez Flamengo entre na conta se você resolver levar em consideração alguns muitos dias e noites sob o teto de uma ex-namorada, ainda que não morássemos oficialmente juntos). Em Madureira, dividia um bom apartamento com mais dois ou três amigos, mas duas coisas me incomodavam: pentelhos de perna no chão em qualquer momento, não importasse quando havia sido a última varrida; e as condições e tempo de viagem de casa ao trabalho. Daí, ao procurar meu terceiro (ou quarto) ninho na cidade, me pautei por dois critérios: que fosse algo que eu pudesse pagar sozinho e que estivesse próximo a uma estação de metrô da Linha 1. E foi assim que, em agosto de 2016, eu vim parar aqui, em um conjugado simples-porém-honesto na Rua Evaristo da Veiga, a 280 metros do metrô da Cinelândia.

A meu modo, tenho vivido o Centro desde então. Bebo meu café na varanda, com o Quartel General da PM à minha frente, a Catedral à direita e os Arcos um pouco mais pra lá. Tomo o metrô diariamente até a Cidade Nova, onde, por um feliz acaso, passei a trabalhar depois de exato um ano por aqui. Faço a feira na Lapa quase todos os sábados – a substituindo, eventualmente, pela feira de domingo, na Glória (que, ok, é Zona Sul, mas tá tão colada na minha rotina de Centro que, beleza, vamos combinar aqui o conceito de liquidez geográfica). Tive um breve relacionamento com uma moradora da Rua da Lapa e, hoje, vivo indo e vindo à Praça Tiradentes para encontrar minha atual namorada depois de suas longas viagens de 371. Aliás, cansei (sério, cansei mesmo) de voltar da Praça Tiradentes sei lá que horas da manhã a pé, numa boa, só pra confirmar o fato de que as pessoas exageram fortemente em seus medos sobre o Centro. Também já voltei da Candelária no fim da noite de um domingo carregando um fogareiro numa mão e um home theater na outra e, bem, estou olhando para eles daqui enquanto escrevo esse texto embalado ao som do ensaio de algum bloco nas proximidades. Frequento uma academia na Sete de Setembro, compro meu pó de café na Rua do Ouvidor, encontro amigos pela Pedra do Sal, como tapioca na 13 de Maio e torresmo na Senador Dantas – quase embaixo do consultório onde faço terapia.

Por outro lado, verdade seja dita: não vivo o Centro como gostaria. Torresmos e feiras à parte, há muito nesse pedaço de cidade que ignoro por pura preguiça. Por exemplo: estou aqui há 16 meses e nunca fui aos museus da Rio Branco. Pouco andei pelos lados do Santo Cristo. Não troquei mais de meia dúzia de palavras com os sujeitos que dormem na calçada aqui embaixo – aparentemente posicionados à frente do Batalhão de forma estratégica, tão preocupados com a questão da segurança quanto aqueles que acham o suprassumo do perigo um lugar com pessoas que dormem na rua. Não sei se os aluguéis baixaram desde agosto de 2016 e nem reconheço as praças por seus nomes. Curiosidades que surgiram aqui e ali e acabaram abandonadas da mesma maneira que a plataforma fantasma embaixo da Estação Carioca. Pelo menos até agora.

Enquanto o contrato nesse apartamento seguir valendo, e muito provavelmente depois disso, num próximo, ainda vai ser tempo de ir para a rua, de conversar com as pessoas, entrar nos lugares, adiar a maratona da nova série hypada do momento e conferir a programação no entorno. De encontrar o amigo gerente daquela grande livraria e chorar um desconto ou buscar nos muitos sebos da área os livros que respondem às dúvidas até agora deixadas de molho. E, claro, escrever um pouco sobre cada uma delas.

Há muita vida e história do Santo Cristo às margens da Glória. Vamos falar sobre isso.

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