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A feiura não está nas ruas

“O Centro do Rio está feio, cheio de ambulantes e moradores de rua, impossível. Um verdadeiro horror.”
Adoro trabalhar com contas públicas. Crises à parte, e há vezes em que justamente por conta das crises, adoro meu trabalho. Só preciso manter a terapia em dia por conta deles: os cidadãos de bem da classe média.


Em outro momento, divulgando uma campanha sobre pré-natal, precisava lidar com pessoas que pediam pela esterelização compulsória de mulheres pobres. Aquele discurso capaz de encher o velho Adolf ou algum candidato popular da extrema-direita brasileira de orgulho. Mais recentemente, lido com uma gama maior de comentários e, por consequência, com um leque maior de frases assustadoras.
Disfarçados de preocupação com o espaço urbano, esconde-se, não tão bem, não um sentimento de compaixão para com as vítimas da pobreza, mas de medo e ódio para com o pobre. O número de ambulantes ou a presença de pessoas em situação de rua não incomodam pelo momento de incerteza financeira que empurra pessoas para o mercado informal ou para fora da segurança de um teto. Incomodam porque são feios. Porque tiram a beleza do bairro onde se mora, se trabalha, se transita. Não se trata de dar dignidade às pessoas. Se trata de tirá-las da frente, de escondê-las. E não importa onde, desde que não seja pela calçada onde se passa.
É óbvio que eu ficaria feliz em saber que os donos dos rostos familiares que vejo pela Evaristo da Veiga, Cinelândia e Arcos, saíram das ruas. Que reencontraram suas famílias, conseguiram emprego, recuperam-se de seus vícios. São seres humanos vivendo em uma situação que nem eles, eu, ou o comentarista preconceituoso de internet merecemos viver. Mas a presença dessas pessoas, e não o que essa presença representa, não pode ser alimentar o discurso sobre falta de beleza do espaço público.
Nem mesmo o discurso da falta de segurança cola. Mesmo entre os dependentes químicos, a maioria vai preferir revirar o lixo antes de roubar o seu smartphone, acredite. Do contrário, a presença de policiais ou guardas seria o suficiente para dividir aglomerações em grupos menores, espalhados por ruas mais desertas, a espreita dos bens das senhoras comentaristas de Facebook. Se não o fazem, não é porque querem “enfeiar” pontos públicos. É porque, também, buscam estar seguros na presença uns dos outros.
Sem muita esperança, aguardo pelo dia em que, antes de julgar a beleza de uma área urbana pela presença de grupos menos favorecidos, a Dona Maria e o Seu José, pensem estarem se referindo a pessoas, e não a um buraco no asfalto.
Enquanto isso, trabalho.

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